Entendendo o design espanhol

12/12/2008 § Deixe um comentário

300% spanish design

Num apanhado de 300 peças de design, a exposição 300% Spanish Design mostra com equilíbrio um pouco da história do design gráfico e de produto na Espanha. A exposição, que está no SESC Avenida Paulista, ocupando dois andares e a “vitrine” no térreo, está bem montada e coerente, embora tenha alguns pequenos erros (como, por exemplo, traduzir diseño para desenho…). Neste panorama que nos é mostrado, percebemos o que foi feito no último século, deixando claro que a Espanha é um celeiro de grandes designers.

Não falo com muita propriedade, apesar de ser praticamente um “designer de verdade”, mas a real impressão que temos é que o design por lá apesar de seguir as tendências e movimentos europeus, manteve uma certa tradição e não rompeu completamente com a cultural do país, gerando assim peças inventivas, surpreendentes, ao mesmo tempo trazendo uma assinatura própria e demonstrativa de suas raízes. Cabe dizer também que a melhor parte da exposição são as cadeiras e as luminárias. No design de produto, a Espanha deixa florescer todas as qualidades levantadas acima, ficando diante da vanguarda, projetando com força, guardando elementos próprios e coerentes.

Já no design gráfico, a impressão que temos é que devemos considerar mais o valor histórico, do que propriamente a inventividade espanhola, uma vez que a maioria dos cartazes traz muitos elementos das vanguardas, mas sem dar-lhe uma forma e função da real Espanha, exemplificado pelo maravilhoso cartaz de Josep Renau, no auge máximo do futurismo. Neste contraste com o design das cadeiras e luminárias, apenas os trabalhos de Picasso e Miró nos tiram do marasmo explícito, que só sai de cena realmente a partir dos cartazes da metade da década de 70.

Apesar de toda grandiosidade criativa dos espanhóis, também fica claro que ainda conhecemos pouco sobre sua produção (ao menos digo por mim, que apesar de já ter ouvido falar bastante, tinha uma idéia pouco real do que era o design espanhol), situando esta exposição como um ponto de partida no conhecimento de um país, que na história do design, é muito similar ao nosso. Tenho essa impressão por ver que o Brasil já teve sua produção altamente influenciada pelas vanguardas, então passou a incorporar elementos estrangeiros mesclando aos brasileiros, e agora tendo a possibilidade de fazer florescer novas tendências.

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Exposição: 300% Spanish Design
SESC Avenida Paulista
Até:
11/01/2009

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A importância do olhar

11/12/2008 § Deixe um comentário

Pai e Filha

Deste sensível filme do final da década de 40, creio que haja pouco pra se escrever. É um filme para se olhar. Repare, não é para se ver simplesmente, e sim para olhar, contemplar. Diante das composições formais e delicadas de Yasujiro Ozu, nós ficamos inertes, assim como dentro do filme, onde a câmera baixa se movimenta pouco, os planos são longos, pertinentes para a contemplação e captura daquelas vidas na película.

Com sua movimentação vagarosa, é como se o cineasta nos desse a chance de reparar em cada milímetro da vida, pois, hoje é uma atitude escassa e pouco lembrada, pelo cinema, pelo mundo, por cada indivíduo. É como se Ozu colocasse um contraponto à nossa rápida rispidez, fazendo uma brecha de vento fresco surgir dentre o espaço de nós e da tela.

Onde estão nossos olhos atentos, num momento onde somos expostos a explosões de vida indelicadamente, onde, por obviedade, somos obrigados a ser rudes e insensíveis? Não creio numa estética tão contemplativa para tudo, mas ter o encontro com o “não-movimento”, é como um colírio à velocidade, ao ágil, ao efêmero de tudo que nos rodeia.

Olhe, e este é meu único conselho. De resto, esqueça, apenas se atenha a ficar de prontidão à beleza da banalidade, do cotidiano, da vagarosa vida, que também é nossa, mas esquecida de imediato ao acordarmos todo dia.

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Título: Pai e Filha
Título Original: Banshun
Direção: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu, Setsuko Hara, entre outros.
Ano: 1949

Ladies and Gentlemen we are floating in the space

10/12/2008 § Deixe um comentário

Ladies and Gentlemen we are floating in space

Resolvi ouvir uma banda/cantor/cantora/compositor/álbum diferente por semana também. Ter a experiência de outros ritmos musicais é algo que sinto necessário, para ampliar os sentidos e também para não me fechar no “meu mundinho”. É uma tarefa difícil, escutar coisas que não fazem parte do “seu eu”, digamos assim, mas num mundo tão exigente, de tantas formas, possibilitar uma abertura, mesmo que seja simbólica, faz com que você se acostume com essa atitude. É o que eu penso.

Para esta primeira semana, me foi recomendado escutar o álbum Ladies and gentlemen we are floating in space, da banda inglesa Spiritualized. Comecei minha jornada pela canção “Stay with Me”, a única que eu já tinha ouvido uma vez na vida. Aí deixei o cd rolar, coisa dificílima pra mim. Senti um pouco de sono, tédio, tristeza, brisa, mas principalmente uma grande calmaria, sensações cortadas apenas pelas músicas mais agitadas, caso de “Electricity” e “Come Together”, que inclusive se tornou a minha favorita do álbum. Vejo que será uma banda que eu não vou tatuar o nome na pele, mas possibilitou algumas sensações interessantes, que geralmente eu não gosto.

Eu ouço música para me libertar das angústias do dia-a-dia, como quase todo mundo, mas para isso eu preciso ouvir coisas mais quentes, fervorosas e, digamos, mais tradicionais a mim. Tenho meu lado conservador bem ao meu lado, neste momento.

Então ouvir algo tão contrastante, em diversos sentidos, se torna uma boa experiência, ainda mais levada no sentido de ouvir algo novo e que eu não ouviria usualmente, lembrando também da paciência que exigi de mim, para não sair pulando as faixas mais calmas e hipnóticas. Mas com esse tipo atitude, de “auto-ajuda”, eu vejo que posso aprender mais sobre a ansiedade, que posso respirar e ouvir tranqüilamente um cd e saborear uma música desconhecida, deixando que a sensação chegue, entre e se incorpore, tentando abstrair ao máximo o momento a seguir.

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Álbum: Ladies and gentleman we are floating in space
Artista: Spiritualized
Ano: 1997

China tão perto

09/12/2008 § Deixe um comentário

China Construção Desconstrução

Duas coisas, logo a primeira vista, são percebidas na exposição: um choque contra o que se imaginava encontrar em uma exposição “chinesa”, intenção clara dos artistas, deixando bem óbvio que ainda temos uma visão muito tradicional da China; a segunda coisa, é uma ruptura silenciosa, artistas que buscam uma identidade, um novo olhar. Aí, pra mim, as coisas convergem: me lembra o Brasil.

Alias, eu só consigo traçar paralelos, ao pensar no que vi. Tudo lá, era de um frescor fruto da tentativa que tenta trazer as artes do país ao “patamar internacional”. Não se pode dizer que encontramos as obras mais maravilhosas do mundo, algumas estão em evolução, e o que vemos é um aparente estágio de crescimento. É o fruto de um país que cresceu tão rápido, que ainda não se acostumou, que ainda não percorreu pela totalidade, ele próprio.

É como se todo estivessem em busca dos pedaços partidos durante a brutalidade anterior. Eu, como simples amador, sinto o mesmo aqui. Pelo menos, meu sentimento é o mesmo, logo, é como se as obras fossem bem íntimas à mim, transmitindo diversas formas de entrar num mundo que lhe foi proibido. Tudo é um pouco angustiante, sufocante, rude, experimental, tudo para possibilitar uma brecha.

Olhar aquela totalidade, que por serem tão opostas, cria então uma singularidade pelos elementos dispersos, uma totalidade pela sutileza violenta. E de violência, cada obra está carregada, assim como está carregada de séculos e séculos de tradição. Enfim, chega a hora de desconstruir.

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Exposição: China: Construção – Desconstrução
No: MASP (Museu de Arte de São Paulo)
Até: 15/02/2009

Obsessão, descaso, arrependimento… no amor

09/12/2008 § 1 Comentário

A Fronteira da Alvorada

Neste primeiro parágrafo eu preciso expor claramente que não gostei do filme. Vejo este filme como uma tentativa frustrada de ser algo cabeção demais. O máximo que se consegue é ser: maçante, folhetinesco, boring. Enfim, não vou me ater às “falhas” fílmicas, não é esse meu objetivo. O filme traz algo coerente, mas demora-se a dar as pistas para uma construção, não muito criativa. Pode agradar, porque é um tema atual.

Demais o que se percebe é que se trata de um filme que revela o estado de inércia dos tempos atuais, onde as pessoas estão tão presas a algo que simplesmente não conseguem se aprofundar em algo, falta foco. O relacionamento amoroso, assim como qualquer outra situação, então se torna uma fuga, ou para uma obsessão, ou para um descaso total, ou ainda para um arrependimento tardio. É o que fica claro, na esfera da obra.

Realmente por vezes chegamos num ponto onde a insensibilidade está tão alta, que simplesmente nos tornamos rudes e grosseiros, como uma pedra crua, e somos tão incentivados a agirmos como animais, que não vale a pena abrir concessões aos outros. Teimosia, comodismo, inflexibilidade. O relacionamento torna-se uma via de mão única. Seria uma desconstrução da razão e dos valores dos sentimentos, de compartilhar, de viver junto. Perde-se o costume de conviver, um sintoma realmente em alta no mundo. Perceba.

E apesar do vazio, os fantasmas do passado individual de cada um continuam bem vivos, e influenciando nossa percepção, sentidos, vida. Em tudo que nos tange, precisamos estar atentos, porque segundo a lição folhetinesca do filme: devemos sempre estar atentos, para não deixarmos a oportunidade do amor passar. E acreditem, o amor passa.

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Título:
A Fronteira da Alvorada
Título Original:
La Frontière de l’aube
Direção:
Philippe Garrel
Elenco:
Louis Garrel, Clémentine Poidatz, Laura Smet, entre outros
Ano:
2008

O oitavo filme e meio

05/12/2008 § 1 Comentário

Oito e Meio

 

Começar uma lista de “filmes-que-quero-ver”, a partir de uma obra tão explosiva, como 8 1/2, é como uma grande vertigem, uma experiência única e inesquecível. Tudo lá excita o olhar, a mente, os sentimentos, deixa os sentidos à flor da pele, assim fica difícil escrever qualquer coisa sobre o filme. De imediato fica claro que eu preciso assistir de novo, mas como tenho mais 114 filmes pela frente, só daqui um ano eu vou rever esta obra, o que pode acarretar numa segunda visão, mais elaborada e profunda.

O que posso dizer, assumindo o clichê, é que é um filme lindo, comovente como uma força da natureza. Sua precisão e imprecisões certeiras trazem uma sensação crua, mais contundente por explorar o processo da criação, processo experimentado por todos, conferindo à obra uma humanidade e particularidade especial. Este foi um modo de explorar a criatividade, com ironia, sutileza, violência e surpresa, criando imagens tão ricas, que o termo meta-linguagem só empobrece a obra. Os sentidos se amplificam e nos vemos naquilo, sentimos tudo de um jeito tão pessoal, que o filme ultrapassa a si e permite um envolvimento novo e místico.

Neste jogo rápido, que vai passando desapercebido, quando nos damos conta já estamos por inteiro nele. Escrever algo mais, é impossível, pois é um filme de grande sensação, e digo isso saindo do meu devaneio. É preciso assistir, assistir e assistir de novo… é um filme para se ver milhares de vezes, para compreender e sentir melhor cada nuance, cada fração de segundo. Numa tentativa de apreender não o que o filme passa, e outras coisas mais tradicionais que procuramos, e sim para vislumbrar cada uma daquelas imagens que de tão artesanais, possibilitam que nós mesmos criemos imagens tão únicas quanto Fellini criou.

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Título: 8 1/2 (Oito & Meio)
Título Original: 8 1/2 (Otto & Mezzo)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale, entre outros.
Ano: 1963

Adoniran Barbosa e Convidados

04/12/2008 § 1 Comentário

Adoniran Barbosa

Foi com a música Tiro ao Álvaro, de Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles, na gravação histórica de Elis e do próprio Adoniran, que eu posso dizer que começou a minha paixão pela música, mas principalmente pelo samba. Com essa música começou o processo que acompanha minha vida até hoje: escuto uma única faixa de um álbum, insanamente, até me desgastar totalmente, até decorar tudo que é possível daqueles sons… para então prosseguir a audição do álbum. E faixa a faixa eu vou descobrindo o álbum e o artista, como se fosse uma espécie de relíquia, prolongando o prazer da descoberta. E com Adoniran foi assim.

Depois cada faixa ia compondo um cenário inédito e particular, criando na minha cabeça de criança imagens tão estranhas e belas, próximas a de um sonho, pois acreditem, desde criança eu sou um “viajado”, a diferença é que antes eu não tinha esse repertório de palavras tão sérias e taxativas. Ouvia então, Iracema, numa versão de beleza dramática incomum, graças à interpretação de Clara Nunes; Me empolgava com a alegria melancólica de Vila Esperança, com MPB-4; E pulava a faixa quando chegava a música que eu considerava mórbida e horrível, Bom dia, tristeza, com Roberto Ribeiro.

Agora eu consigo ver com muito mais clareza em cada música, aquilo que desde pequeno eu já sentia: Adoniran, cronista de um tempo, incubava em cada canção seu modo de olhar um pouco melancólico, um pouco satírico, um tanto contestador, revelando imagens ricas das próprias veias da cidade onde ele morava. Com sua estética popular, sem ser populista, atingiu altos pontos neste álbum, como se pode ouvir em Torresmo à Milanesa, com Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro; Seu lirismo se expande e se amplifica, exatamente na faixa que eu menos gostava, Bom dia, Tristeza, parceria com Vinicius de Moraes; E nunca perde o ponto na crítica social, percebido com clareza em Despejo na Favela, com Gonzaguinha.

E é exatamente desse modo de falar ao povo que eu vejo a grande característica de Adoniran, é o que eu gostaria de aprender. Essa comunicação fácil, mas que jamais menospreza o outro lado.

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Álbum: Adoniran Barbosa e Convidados
Artista: Adoniran Barbosa
Participações: Elis Regina, Clara Nunes, Gonzaguinha, Carlinhos Vergueiro, Clementina de Jesus, entre outros.
Ano: 1980

Where Am I?

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