Design Gráfico e Educação: Educomunicação

21/07/2011 § 2 comentários

Vamos lá, foi bem difícil de sintetizar as ideias sobre a educomunicação, mas cá estou eu.  Sublinho que a importância desta síntese para mim é de não apenas servir de base para as oficinas que ministrarei no N Design (Design Gráfico e Educação: uma discussão introdutória e Produção de Fanzine e formação do designer), mas também para criar uma certa conexão entre os pensamentos que estão soltos em minha mente. Espero que a coisa toda não fique mais confusa.

Como eu havia dito no outro post, pensar a relação do design gráfico e a educação é algo ainda muito novo para mim, um caminho um tanto quanto desconhecido e cujo apenas os primeiríssimos passos eu dei. Enfim, se esta relação é muito nova e recente para mim, relacionar design gráfico e educomunicação é algo ainda mais fresco ainda, de qualquer maneira faço esse esboço e levo para o N Design pois realmente entendo que nosso tempo é o tempo da comunicação e da tecnologia, e além disso, como sempre diz a Profa. Grácia: todos tem o direito a se comunicar.

Paralelamente, também acho importante reforçar, como bem lembrado pela Grácia, que a noção de educação nesta perspectiva não se restringe apenas ao ambiente escolar e, mais além ainda, uma educação escolar (seja formal ou não-formal): aqui há que se compreender que esta educação vem não ensinar, mas sim fortalecer os indivíduos e os grupos – talvez compreender que nesta perspectiva da educomunicação não há professor, tutor ou etc, mas sim um mediador, traga uma boa ilustração para compreender isto. Tanto é que os grupos são muito mais responsáveis por si próprios do que o mediador ou mesmo outras instituições – sendo assim, qualquer grupo pode adotar estas medidas de “produção” e estabelecer essas práticas, não é preciso que haja alguém formado institucionalmente, com um diploma lindo e tudo mais.

E nós, designers, nos comunicamos? Sabemos o que é isto de fato? Essa preocupação é que me motiva, neste momento. O designer gráfico é um profissional que está intrinsecamente ligado à comunicação, mas será que pensa-se nisso? Ao menos eu, enquanto era estudante de design, nunca pensei e nunca, dentro dos muros da faculdade, fui questionado a pensar. Como alguém que irá desenvolver produtos nesta área não passa por um processo crítico desta ordem? Penso que produzir comunicação na perspectiva da educomunicação não é apenas uma medida formativa para o campo profissional e/ou para uma compreensão crítica das mídias, também é uma medida que visa formar as pessoas em si, conscientes de suas possibilidades, falibilidades, direitos etc.

O que me deu possibilidade de refletir e falar sobre tudo isso foi basicamente a minha vivência no já citado Núcleo de Educomunicação do Lab_Arte FEUSP, mas agrego aqui também alguns pontos do que vi e ouvi no 5º Seminário de Educomunicação (nesse link vocês podem ver este seminário e outros que já aconteceram), promovido pelo Instituto Gens de Educação e Cultura e o Projeto Cala-boca já morreu, cujo tema foi Educomunicação e Design, tendo como convidado Vitor Massao.

Assim, como eu esbocei acima, o que o Massao propõe é, de imediato, a necessidade de desconstruir o que é ser designer, percebendo o que é o mundo comercial. Para ele, e acho que para mim também, o designer tem uma responsabilidade social [digo “acho” simplesmente porque ainda não me detive o suficiente nesta reflexão e no que significaria a “responsabilidade social do designer”].

Na continuidade, Massao apontou são diversas aproximações entre a educomunicação e o design gráfico, e penso eu que um dos motivos disso é a própria prática da comunicação em ambos, embora cada qual com objetivos bem distintos. Por exemplo, a própria metodologia clássica do design gráfico tem pontos em comum com esta perspectiva educomunicativa que tento lhes apresentar: há uma fase conceitual, uma produção etc – enfim, há uma metodologia.

Outra aproximação importante é a presença do trabalho coletivo em ambos, mas aqui há uma diferença muito importante de se notar: a distinção entre grupo e equipe. Enquanto no mercado de trabalho existem equipes de produção, na educomunicação o que há é uma sensibilização em prol da formação de um grupo, ou seja, não é que existam indivíduos que meramente se juntam para a realização de um trabalho específico, mas sim pessoas que se agrupam e realizam de forma coletiva uma produção de comunicação. [Talvez isto não tenha ficado muito claro, esta diferença, mas no momento não tenho palavras melhores para expressar isto]

Claro que as diferenças entre os ambientes onde ocorre o design gráfico (estúdios, escritório, agências) e a educomunicação por si só estruturam as próprias relações, mas talvez nem seja o caso de se pensar em uma prática de design gráfico mais humana no mercado [ao menos não é algo que eu esteja pensando seriamente neste momento]. O fato é que os valores embutidos nas diferenças entre grupo e equipe se reproduzem consequentemente no resultado. De qualquer modo, é interessante pensar em práticas desta perspectiva na formação do designer.

Isto nos leva a retomar, rapidamente algo que escrevi em outro post, falando especificamente sobre o Núcleo de Educomunicação:

“Assim, retomamos também a premissa básica destes encontros, que em pouquíssimas palavras é a criação e produção de comunicação para a experimentação dos meios em relação à educação e para a compreensão e vivência do convívio e trabalho coletivo. Com todas as lacunas possíveis e imagináveis, essa breve frase sintetiza (ou ao menos tenta) o que é o nosso objetivo, digamos assim, com este núcleo. Aqui o que mais nos interessa é o processo em si e não o produto final.

A produção em educomunicação visa estas questões na prática, considerando deslizes, erros e tropeços (comuns a todos neste processo) para a construção de novas possibilidades de convívio, acertos e criação, tudo isso voltado à formação de professores, mas também, à formação das pessoas como um todo.

Enfim, a frase em negrito revela uma premissa fundamental desta prática e que pode ser pensada em relação ao design gráfico: ao mesmo tempo em que no design a metodologia [o processo] é fundante da própria razão de ser deste campo, na sua prática ela é jogada de lado, digamos assim, pois o que fica, o que importa e até o que se preza é o produto final. Claro que este pensamento precisa ser afinado, mas de qualquer modo nos serve de ponto de partida para uma outra reflexão.

Encerrando este tópico, recentemente eu encontrei uma anotação minha, perdida dentro de um livro, uma anotação um tanto quanto ensaística e que de certa forma se refere a esta preocupação metodológica, nela eu escrevi:

Uma vez que o design gráfico não pode ser dissociado da prática, já que ela está inerentemente conectada com a vida cotidiana do designer, talvez seja preciso investigar a própria prática, então, considerando tempos e contextos específicos. Ou seja, ao invés de vislumbrar estudos de caso ou experiências práticas, talvez seja mais interessante se deter no cotidiano de designers, escritórios e estúdios para verificar em que medida estas teorias que nos embasam se verificam presentes e úteis. Deste modo, talvez seja possível pensar o design de fato, e não apenas pensando-o se referindo ao nosso próprio umbigo e às teorias caducas que tanto nos acompanham. Pode ser que assim possibilitar-se-ia uma reflexão prática-teórica que fosse abrangente e importante o possível.

Será? Apenas sei que o importante é continuar duvidando.

ps: quem se interessar por leituras sobre educomunicação, aqui tem alguns textos. A quem interessar, também deixo a primeira parte do 5º Seminário. :)

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§ 2 Responses to Design Gráfico e Educação: Educomunicação

  • babi diz:

    não sei se eu já tinha lhe dito isso, mas eu pensava em prestar design quando estava no último ano do colégio. acabei deixando a idéia de lado porque não conseguia me imaginar satisfeita com a posição no mundo que eu ocuparia. e acho que isso é a questão da função social do designer. eu tinha uma certa convicção de que ser professora seria um grande passo pra eu me sentir realmente útil ao mundo e não só ao mercado. acho que fui radical, mas não me arrependo da escolha. hoje, como forma de reparação, tento entender esse campo e o diálogo entre eles; não com tantos elementos quanto os que você apresentou aqui, shin (que eu quero incorporar ao meu pensamento), mas acho que como professora quero trabalhar com paixão e sou apaixonada pelas formas de expressão e comunicação que nos rodeiam (sobretudo nesse tempo de comunicação e tecnologia). só posso ensinar bem aquilo que sei bem, e só posso saber bem aquilo sobre o que eu amo conhecer mais.

    gosto da profundidade do seu texto. de verdade.

  • acho não me disse… aposto que você seria uma designer muito bacana, mas posso falar? acho que você fez muito bem em não ter prestado.

    se um dia você quiser, podemos falar sobre isso. :)

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