Design Gráfico e Educação: Socialização

22/07/2011 § Deixe um comentário

Fechando os posts sobre a relação entre design gráfico e educação (ao menos pré-N Design), hora de falar um pouco sobre o processo de socialização e porque eu acho que isto tem a ver com o assunto. Inicio colocando uma síntese da oficina que levarei ao N, que se propõe a realizar:

Uma discussão aberta e introdutória acerca da relação entre design gráfico e educação, onde pretende-se relacionar os elementos trazidos pelos participantes, se possível, com alguns tópicos referentes à teoria da socialização e da perspectiva da educomunicação.

De imediato já aviso (aos navegantes) que não é objetivo desta oficina ensinar sobre esses temas, o que eu pretendo é plantar a sementinha, iniciar de modo bem superficial para que quem se interesse tenha algum repertório para iniciar leituras e tudo mais [já deixo o convite e as portas abertas para uma discussão em grupo]. Por isso mesmo, já deixo uma bibliografia que eu penso ser básica, ou ao menos foi por ela que eu próprio fui iniciado.

Dito isso, reforço que considero a importância desta discussão ao compreender que a contemporaneidade se remete a um contexto extremamente midiático e tecnológico, ou seja, as relações sociais ocorrem no tempo da cultura das mídias, assim como a produção em design gráfico e a educação. Assim, entendendo que as comunicações estão amplamente presentes em nosso cotidiano, ultrapassando seu caráter meramente informativo e/ou de entretenimento, há que se pensar: o que há nos “bastidores”? O que está “invisível” e precisa ser estudado e compreendido?

Estas primeiras perguntam surgem, então, na minha compreensão, ao compreender que a atividade midiática, portanto, não está isenta, pois aqui a entende-se enquanto produtora e transmissora dos elementos que formam o universo simbólico que nos permitem viver em sociedade, como códigos, padrões e categorias. Por sua vez, tal colocação nos leva a verificar a condição das mídias no processo socializador.

Por socialização entendo, apoiado nos autores da bibliografia, principalmente Setton, como um sinônimo de educação, mas que traz uma abordagem e visão mais ampla, pois não se refere apenas ao ambiente escolar, mas também às interferências e relações com outras instituições como a família, a religião e a mídia. Ou seja, a socialização se remete a uma transmissões de valores, modos de ver, sentir e pensar que estão estreitamente relacionados às relações dos indivíduos com estas instituições. Enfim, “as mídias serão vistas aqui como espaços educativos, na medida em que são responsáveis pela produção de uma série de informações e valores que ajudam os indivíduos a organizar suas vidas e ideias” (SETTON, 2010, p. 9).

Sendo assim, propõe-se uma abordagem mais ampla e crítica da relação entre as mídias e a educação (e eu incluo/questiono o design gráfico dentro disso), observando e compreendendo como ocorrem os processos de socialização difusos, uma vez que a instituição midiática, a nosso ver, ultrapassa a condição de instrumentos, principalmente por possuírem uma face simbólica. Consideramos uma socialização difusa, pois “não possui um lócus de realização concreto, mas se dá a partir da ambiência midiática” (PRAZERES, 2010, p. 4). O que eu quero levantar com estas questões todas é: e o design gráfico e o designer dentro desta rede? Qual sua importância e do que ele produz?

Vale lembrar que nesta perspectiva, entende-se que as mídias possuem uma face imaterial e uma face material: a primeira remete ao conjunto de valores simbólicos nela embutidos, criados e disseminados pela circulação da comunicação; e a segunda remete aos meios de comunicação por onde circulam as informações, entendendo (segundo Setton, 2010) as mídias como produtoras de artigos culturais, disseminados por meio das diversas tecnologias como a internet, as mídias impressas, entre outras.

Enfim, dada esta complexidade existente na formação dos indivíduos contemporâneos e a importância das mídias e tecnologias no cotidiano de todos nós, me interessa muito esta discussão, por entender que tal perspectiva é muito rica e faz o possível para tratar estes assuntos considerando toda sua extensão e variedade. Cabe então refletir sobre o papel do designer gráfico nessa complexa trama.

Claro que não tenho resposta nenhuma e sequer avencei um passo nesta discussão, mas enquanto pessoa que vivenciou certas dificuldades e ausências (de estudos aprofundados e coerentes no design gráfico e a própria prática) creio que tal discussão é deveras rica e pode fomentar algo muito bom e pertinente. O que me proponho é a provocar perguntas.

Finalizo este post exatamente botando no papel o prazer de pensar em tudo isso. E mais, acredito que reside justamente nestas sementes plantadas nos outros, o real valor do N Design, e digo mais: o próprio caráter socializador deste evento, que não apenas ensina e/ou propaga conteúdos e técnicas, mas que permite a transmissão de modos de ver, pensar e agir de um de um ideal de designer, isto sim me parece fundamental – ao menos para mim, que por certas razões me identifico com este ideal.

Restará apenas a pergunta: será que este ideal de designer é coerente ao nosso contexto social, histórico e cultural?

 

 

Referências bibliográficas

BERGER, Peter L. & LUCKMANN, Thomas. “A sociedade como realidade subjetiva”. In: A construção social da realidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1983.

BOURDIEU, Pierre. Estruturas sociais e estruturas mentais. In: Teoria & Educação nº3. Porto Alegre: Pannonica Editora, 1991.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade Pessoal. Lisboa: Editora Celta, 1994.

KELLNER, Douglas. A cultura das mídias. Bauru: EUSC, 2001.

PRAZERES, Michelle. Mídias e tecnologias na educação paulista: uma mirada sobre a moderna socialização escolar. In: Anais da 33a Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – Anped: Educação no Brasil: o balanço de uma década. 2010. Caxambu, 17 a 20 de Outubro de 2010. Disponível em:  http://www.anped.org.br/33encontro/app/webroot/files/file/Trabalhos%20em%20PDF/GT14-6406–Int.pdf

SETTON, Maria da Graça Jacintho. Educação e mídia: um diálogo para educadores. São Paulo: Contexto, 2010.

______. Família, escola e mídia: um campo com novas configurações. In: Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 107-116, jan./jun. 2002.

______. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu. In: Revista Brasileira de Educação, ANPED, n. 20, mai./ago. 2002.

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