The man with the golden arm

18/06/2009 § 1 Comentário

Com a abertura do filme The man with the golden arm, do diretor austríaco Otto Preminger, inauguro mais uma nova categoria: vídeos. Não poderia ser outro vídeo, senão esse, pra começar a falar sobre a relação do vídeo, do design e do desenho, a qual eu me proponho a partir desse post. Pra quem não sabe, essa abertura foi concebida pelo grande mestre Saul Bass, que também criou o cartaz do filme.

Com simplicidade e muito estilo, Bass inaugurou uma nova preocupação fílmica e abriu as portas de uma nova especialização do design. Ele não simplesmente fez uma abertura que seguisse a identidade criada por ele, ou que fosse bonita e agrádavel, mas apropriou esses elementos gráficos de movimento a favor da linguagem, da arte e da informação, inaugurando então uma nova área a ser explorada: motion graphics, que hoje em dia é tão comum e que nessa abertura é exibida com um certo ar “tosco”, mas absolutamente autêntico e inovador.

Eu poderia falar sobre a minha interpetação sobre essa animação, mas isso provavelmente restringiria o grande prazer de ver e pensar sobre esse vídeo. O que pode ser dito é: há muito e pouco, existem evidências, mas também há o mistério. Não é um resumo, porém existem indícios. Eu vi o filme recentemente e recomendo que todos façam o mesmo. Por hoje, simplesmente deliciem essa pequena obra-prima.

poster_saul_bass

Valsa da memória

29/04/2009 § Deixe um comentário

valsa com bashir

Vai ser muito difícil escrever algo que já não tenham escrito por aí, dito por aí. Há muitos lugares comuns. Então, vou me concentrar nas impressões altamente pessoais para falar da animação Valsa com Bashir, do diretor israelita Ari Folman. Se você ainda não viu nada, nem ouviu falar sobre o filme, clique aqui e veja o trailer.

Quem está antenado com as notícias de cinema, já deve ter lido sobre ou apenas de relance sobre esse filme, que mistura a animação ao gênero documental. A mistura cria um casamento ainda um pouco instável, mas seguramente feliz, por mais estranho que isso pareça. Valsa com Bashir conta sobre os massacres de palestinos na primeira Guerra do Líbano, que ocorreu no início da década de oitenta.

O trajeto para este enredo é delimitado pelo esquecimento, pela memória apagada e que agora se procura reconstituir. A animação surge de um contexto pessoal e vai se ampliando para que todos entendamos e recordemos desses episódios terríveis dessa guerra. Esses acontecimentos vão dando profundidade de pouco a pouco, o que faz com que pessoas como eu, que mal sabiam dessa guerra, se sintam ligeiramente confusos. É um pouco da sensação do personagem.

Mas Valsa com Bashir não consegue ir muito além e seus personagens parecem ser falsamente construídos e não há identificação direta. O desenho do filme é lindo, mas muito mais nos stills. A animação é muito marcada e dura, criando uma aura de distância, que pode e deve ter sido uma escolha do diretor, mas que causa um grande estranhamento, principalmente nos primeiros minutos do filme. Não chega a ser um “defeito”, embora eu tenha me sentido bem incomodado com esse fator.

Eis que no final, pode existir uma explicação para tal escolha. Apenas nos últimos minutos da animação, surgem imagens do “real”, imagens captadas logo depois do massacre. São cenas terríveis e violentíssimas dos cadáveres. Tudo isso se intensifica pelo fato do choque animação x realidade, o que pode colocar em cheque o “defeito” da animação, que citei acima.

De qualquer maneira, não resta discutir mais isso. É preciso não esquecer.

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Título:
Valsa com Bashir
Título Original:
Vals Im Bashir (Waltz with Bashir)
Direção:
Ari Folman
Ano:
2008

Quem quer ser um milionário?

10/03/2009 § Deixe um comentário

slumdog millionaire

Eu quero ser milionário! E quem não quer? Acho que todo mundo responderia algo assim. Mas e quem quer ser Jamal Malik, o protagonista do filme, um “herói” que não procura o poder cego do dinheiro, mas sim a salvação do seu amor? Nele não existe a ambição cruel da nossa sociedade. Lembrando que quanto mais dinheiro se tem, mais se quer, é uma ambição infinita. De qualquer modo, não estou escrevendo este post para discutir isso, na realidade, como está claro é para falar um pouco sobre o filme que ganhou o Oscar de Melhor Filme, e tantos outros, neste ano de 2009: Quem quer ser um milionário? (ou Slumdog Millionaire, no original).

Que filme! Apaixonante, coeso, emocionante, belo! Eu digo logo que gostei muito do filme, ele me arrebatou com força. Digo também que pra mim é na edição que mora sua melhor e maior qualidade. Pondo ritmo e traçando com velocidade a história de Jamal Malik, e concomitantemente exibindo a tensão do programa de televisão, nós somos levados também à tensão por camadas, a cada pergunta revela-se mais sobre o personagem e seus motivos de querer os tantos milhões. Nada de ambição, é apenas amor. A força matriz que move o mundo de Slumdog. Sim, é um filme sentimental, que facilmente vai te tocar.

No entanto, não é só de amor, esse tema recorrente, que tudo se constrói. A pobreza e a intolerância também surgem como sub-temas fortes e escuros, que desenham as diversas das situações que moldaram de diferentes formas Jamal, Salim, seu irmão e Latika, o amor do protagonista. Cada um é um sobrevivente de um modo diferente, em Jamal existe uma certa inocência, em Salim a força que se corrompe, e em Latika mora a sobrevivência delicada e submissa. É um mar complexo demais para escrever aqui.

Por fim eu não posso deixar de comentar que achei uma baboseira compararem este filme com Cidade de Deus, que de próximo só tem coisas supercifiais e insignificantes. Cada qual com sua grandeza, são apenas filmes contemporâneos que tratam de problemas sociais, mas lançando sempre olhares distintos e dispersos. Quando Cidade de Deus nos traz uma visão da favela brasileira, é uma face “embelezada” do Brasil que está lá, de corpo e alma dentro de um filme belo. Em Slumdog, existe a Índia, mas poderia ser aqui no Brasil, poderia ser na África do Sul. Cidade de Deus pinta a imagem regional, Slumdog apenas se utiliza de uma região para desenhar a situação humana diante da pobreza. Não estou dizendo que Slumdog é “melhor” que Cidade de Deus, mas não concordo com essas comparações e acho que cada qual tem suas qualidades, temas e escolhas.

Mas e aí, quem quer ser um milionário?

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Título: Quem quer ser um milionário?
Título Original: Slumdog Millionaire
Direção: Danny Boyle
Elenco: Dev Patel, Anil Kapoor, Freida Pinto, entre outros.
Ano: 2008

Opressão e homossexualismo no cinema… clássico

24/02/2009 § 1 Comentário

milk

Continuando minha missão pró-carnaval indie/cult (mas vejam bem, eu adoro samba!), ontem eu fui ver o filme que deu o segundo Oscar de melhor ator para Sean Penn: Milk. Eu até fui com algumas expectativas, afinal já tinha falado falar bem do filme e de Gus Van Sant, cuja obra eu desconhecia/desconheço. Bom… eu vi Elephant em algum momento da minha vida, mas já apaguei a maior parte das informações…

Uma coisa que eu li sobre o filme, que me deixou com uma vontade a mais de ir assistir foi uma declaração do próprio diretor. Ele disse que foi por causa de Harvey Milk (o personagem biografado) que ele saiu do armário. Isso aumentou minha vontade e lá fui eu. Também eu sempre gosto dessas histórias de “minorias”, sempre têm um tom dramático e querem te fazer pensar blá, blá, blá! Pois que eu pensei que encontraria tudo isso, mas não.

O filme na tentativa de não assumir nenhum partido que fica até meio chato. Em um determinado momento eu me perguntei: não acaba nunca? E a mulher ao meu lado… roncando! As sensações são cortadas, a luta de Milk não envolve suspenses e principalmente, não te envolve. É um ensaio, correto, milimétrico, quase documental. Se não houvesse Sean Penn e Josh Brolin, principalmente, o filme seria lançado no limbo com muita facilidade (e na realidade, acho que vai ser lançado logo mais).

E cadê o filme em si? Bem, ele tem sua história, seus altos e baixos, mas que eu vou deixar de lado por aqui, já que a idéia é sempre falar sobre as sensações. Engraçado tudo isso, num filme que fala sobre preconceitos e opressões do sistema social. De qualquer forma, como pra mim toda essa estrutura “travada” cortou um monte de possíveis sensações, revelo as únicas coisas que surgem como mensagens/sensações: a perseverança e a esperança.

Ninguém vive num lugar que seja perfeito e idílico, e a luta por um lugar melhor é constante, e é nisso que Milk trás a sua força. Num resumo que caberia em 15 minutos, lhes digo: é a entrega para um ideal, a luta que provoca a força da vida, é a esperança que pode iluminar a sociedade. Que tenhamos força pra nunca perdermos a esperança, deixando assim a luz se apagar.

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Título: Milk – A Voz da Igualdade
Título Original: Milk
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Emile Hirsch, James Franco, entre outros.
Ano: 2008

Passatempo, passa o tempo

09/01/2009 § 2 comentários

passatempo passa o tempo

E quem disse que não é bom assistir um filme mais “light”, de vez em quando? Obras que tendem a nos proporcionar uma possibilidade reflexiva e que surgem como um frescor no meio da massa, são totalmente consideráveis e importantes, mas ninguém pode viver apenas vendo “filmes cabeções”. Ok, tem gente que é tão indie-cabeçuda que realmente consegue, embora isso não me pareça ser algo tão legal quanto se julga por aí.

Bendito Fruto é um filme brasileiro que não têm importância claramente marcada dentro da trajetória do cinema brasileiro, embora isso não seja um defeito. É uma realidade que eu só assisti porque estava sem fazer nada nesta quinta-feira, e me deparei com ele numa das sessões de cinema da Rede Globo. Já havia ouvido falar nele, mas é preciso assumir que nunca assistiria por vontade própria, embora não seja de completo ruim. Afinal, que mal tem um filme não querer “mudar o cinema” ou o mundo, e apenas ser simpático, palatável e honesto? É um lado, que me parece, é deixado de lado pelas pessoas. O filme pode ser um sucesso de crítica ou de bilheteria, mas e os outros filmes?

Mas para finalizar esse texto, sobre um filme de puro entretenimento, não vou ficar me alongando mais. É um filme onde o tempo passa, os personagens mudam e ainda vivem presos ao passado, como uma marca que todos nós carregamos conosco. E se no final, eles conseguem romper com esses laços tão tristes e nostálgicos, neste momento eu também deixo pra lá um pouco do meu estilo duro e fico mais maleável, pois é bom não ter o que pensar às vezes.

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Título: Bendito Fruto
Direção: Sérgio Goldenberg
Elenco: Zezeh Barbosa, Otávio Augusto, Vera Holtz, entre outros.
Ano: 2004

Uma vida de sonhos

04/01/2009 § Deixe um comentário

uma vida de sonhos
Logo de imediato já sabemos que se trata de um filme de sonhos, por dois motivos: a primeira imagem clara que surge está desfigurada por um espelho contorcido, de onde surge uma imagem de feiúra satírica; o segundo motivo é porque logo depois já entra um número musical, trazendo consigo sua carga histórica de filme leve, bobo, engraçado e alienado. Condições que não estão à toa nesta obra do diretor e coreógrafo americano Bob Fosse.

O filme se passa numa Alemanha pré-Segunda Guerra Mundial, antes da ascensão absoluta dos nazistas. Os personagens, alienados a este fato, tentam buscar sua felicidade e prosperidade neste terreno de ingenuidade e fragilidade. Talvez não completamente alienados, mas de olhos fechados, num ato egoísta e egocêntrico. Para contra-balancear uma temática obscura, lembrando que é um filme musical, Fosse utiliza-se exatamente desse choque de contrastes para forçar-nos a ver a realidade por traz dos sonhos.

A tela serve de campo de batalha duplo da fantasia contra a realidade. No momento que vamos assistir a um filme musical, o puro entretenimento, deixamos uma vida de realidades brutais, para aceitar a fantasia e o sonho. É uma pequena fuga, o breve momento de descontração. Não se pode culpar ninguém por escapar da realidade para viver um sonho, todos precisamos dos sonhos, porém, podemos nos afastar por completo do meio em que vivemos?

Talvez tudo isso seja uma tolice, porque um musical é feito para sonhar e deixar o lado ruim da vida pra trás, sem que se abandone tudo na vida, mas pode ser que não. Pode ser que nesta película, haja um desejo, lá no fundo, de que as pessoas tomem consciência da alienação, mesmo que ainda sim queiram viver nela. É que pra mim, em nossos tempos num mundo tão obscuro, todos temos uma chance de tornarmos personagens deste musical.

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Título: Cabaré
Título Original: Cabaret
Diretor: Bob Fosse
Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Helmut Griem, entre outros.
Ano: 1972

A importância do olhar

11/12/2008 § Deixe um comentário

Pai e Filha

Deste sensível filme do final da década de 40, creio que haja pouco pra se escrever. É um filme para se olhar. Repare, não é para se ver simplesmente, e sim para olhar, contemplar. Diante das composições formais e delicadas de Yasujiro Ozu, nós ficamos inertes, assim como dentro do filme, onde a câmera baixa se movimenta pouco, os planos são longos, pertinentes para a contemplação e captura daquelas vidas na película.

Com sua movimentação vagarosa, é como se o cineasta nos desse a chance de reparar em cada milímetro da vida, pois, hoje é uma atitude escassa e pouco lembrada, pelo cinema, pelo mundo, por cada indivíduo. É como se Ozu colocasse um contraponto à nossa rápida rispidez, fazendo uma brecha de vento fresco surgir dentre o espaço de nós e da tela.

Onde estão nossos olhos atentos, num momento onde somos expostos a explosões de vida indelicadamente, onde, por obviedade, somos obrigados a ser rudes e insensíveis? Não creio numa estética tão contemplativa para tudo, mas ter o encontro com o “não-movimento”, é como um colírio à velocidade, ao ágil, ao efêmero de tudo que nos rodeia.

Olhe, e este é meu único conselho. De resto, esqueça, apenas se atenha a ficar de prontidão à beleza da banalidade, do cotidiano, da vagarosa vida, que também é nossa, mas esquecida de imediato ao acordarmos todo dia.

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Título: Pai e Filha
Título Original: Banshun
Direção: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu, Setsuko Hara, entre outros.
Ano: 1949

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