Quatro anos de samba

22/02/2012 § 1 Comentário

Há quatro anos estava eu revirando alguns CDs velhos em casa e escutando alguns LPs na casa da minha tia: foi o começo da minha “volta ao samba”. Depois de um bom período, me deu a vontade súbita de escutar novamente coisas que eu gostava quando era menor. Desde então não parei mais e hoje relembro um pouco de tudo isso.

Eu pensei em várias palavras e frases empoladas e dramáticas para este texto, mas quero me distanciar disso, na medida do possível, pois sinto que elas diminuem o que eu realmente gostaria de expressar.

Voltar a escutar samba foi muito bom, foi muito importante e não foi simplesmente uma coisa banal. Coincidiu e deu força a um próprio movimento da minha vida, de resgate, um resgate sobre quem eu era / sou. Sei lá, é muito difícil explicar com palavras neste momento, muito pois é a primeira vez que eu paro especificamente para pensar e escrever sobre isso.

De qualquer forma, essa volta foi como voltar a raiz. Não sei bem que raiz ou que tradição inventada é essa [e aqui eu estou usando palavras fortes, dramáticas e explosivas para tentar expor algo que não sei bem o que é], mas, em outras palavras, esse retorno à fonte foi um indicativo de uma mudança de visão de mundo que eu tinha, foi a pista mais visível do meu interesse, gosto e preocupação com elementos da nossa cultura nacional [ainda que eu saiba, vejam bem, que o não é samba o elemento único ou da gênese da cultura brasileira, apenas pontuo como um dos caminhos que nos podem levar a esta investigação – e aquele que eu escolhi neste momento]. Enfim, o fato é que depois de voltar a escutar samba eu comecei a pensar nessas coisas e desse modo, o que me leva, invariavelmente, a pensar que essa retomada, essa volta, foi essencial para que hoje eu esteja aqui [fisica e virtualmente falando].

E penso que apenas hoje, depois destes anos, seja possível fazer essa retrospectiva pois sinto que estou atingindo uma certa “maturidade” no samba. O que quero dizer é que agora estou ampliando o espectro do que eu ouvia, procurando coisas que eu ainda nõ ouvia, escutando novamente músicas que eu anteriormente não gostava, tentando rever alguns preconceitos e, principalmente, com vontade de participar mais, de ir aos lugares, às rodas, aos blocos, aonda quer que seja. Agora chegou o momento de sair pelas ruas, não apenas ficar gostando e curtindo samba dentro de casa ou no meu iPod.

Enfim, este, como vocês podem ler, é um post de introdução. Nas próximas semanas e meses, pretendo colocar aqui algumas playlists me debruçando por essa breve história, destes quatro anos. A história em si é um tanto conturbada e alguns fatos já estão meio apagados da minha memória, mas de pouco a pouco tentarei retomá-la.

Agora é deixar o samba passar. :)

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Bonjour

16/01/2012 § 3 comentários

Comecei a estudar francês e a professora disse que se diz “bonjour” sempre que se encontra alguém pela primeira vez no dia, mesmo que já seja tarde [umas seis da tarde]. Sei lá se entendi direito, mas gostei da ideia de dizer “bom dia”. Que prazer dizer “bom dia”.

E 2011 foi. Ou quase.

meu cabelo estava assim em 2011, agora...

Bom, o fato é que um ano novo começou e, como de costume, veio junto a esse evento uma boa porção de reflexões, desejos e resoluções. Depois de um ano um tanto quanto conturbado não nego que eu estava com uma lista cheia dessas coisas, esperanças para o novo ano. Mas a real é que isso foi em 2011, antes do dia primeiro. Depois eu vi o quanto isso não me servia.

Nesse novo ano nada de limpezas, de grande arrumações, de jogar as coisas fora, nada de simbolismos. Tudo tem que ficar, na medida do possível, como estava – isto pois eu não quero mais romper e deixar o “ruim” pra trás. Eu quero mesmo lembrar, quero mesmo essa memória. E por isso mesmo eu estou escrevendo aqui, por isso mesmo que decidi levar esse blog “um pouco mais à sério”.

Eu definitivamente não sei aonde quero chegar escrevendo essas coisas aqui, não sei o que quero, acho que apenas vou escrevendo. De qualquer forma, esses textos guardam as várias faces e fases que passei. O próprio título abrangente me permite isso. Interessa o quê? A quem? Quero que interesse?

Nenhuma resposta – ao menos aparente e objetiva.

Recentemente voltei a ouvir os álbum da Beth Carvalho, que há algum tempo estavam de lado nas minhas playlists e escolhas musicais – embora o samba fosse uma constante.

Engraçado, pois há quatro anos atrás, justamente por meio de um dos álbuns dela, é que eu voltei a ouvir samba. De qualquer forma, é bom voltar a ouví-la. Escutar e apreciar os sambas de forma despretenciosa, deixando que o ritmo bata, que a dança venha e a alegria se desenhe. Me sinto reconquistado, conquistado novamente, apaixonado novamente.

Um bom tempo atrás, me perguntaram [não apenas a mim, não uma pergunta, mas uma provocação] o que era educação para mim e, em síntese, o que eu queria alcançar com a educação.

Sinto que ainda não me detive à pergunta, bem como à resposta. Vaguei.

Hoje não tenho resposta, apenas anseios e desejos, mas sei que não quero esperar mais: esperar pela resposta para daí então agir. Minha filosofia-de-botequim-do-mês é: faça e pense junto. Já cansei de pensar muito, dar chance à minha preguiça.

Estou divagando e pode ser que eu esteja falando uma burrada e que daqui dois dias eu leia isso e pense “que lixo”, mas quero me dar o prazer de pensar isso após ter feito. Ah sim, claro que isso não significa ser inconsequente e extremamente impulsivo, não é uma situação extremada, apenas acho que não quero mais ficar totalmente amarrado e com medo de errar e de me equivocar.

Recentemente terminei o que eu chamo de “minha primeira hq”, que cá entre nós está uma vergonha, Me disseram que está bonita e tudo mais – e disso eu não discordo. Enfim, o fato é que mesmo estando ruim para mim, desta vez eu fiz e agora eu posso arrumar. Quero coisas concretas – chega de ideias que nunca chegam a lugar algum.

Chega de se auto-sabotar.

tá bonito?

O que eu penso é que o mundo é bem melhor do que nos parece. As coisas estão aí para serem feitas, há muita coisa, inclusive, mas não é das nossas cadeiras, em frente aos computadores, como nossas palavras magoadas e ríspidas, que vamos mudar nada. Bom, não proponho um levante, não proponho que hostilizemos as pessoas que estão em frente aos seus computadores – como eu, agora -, proponho apenas que não sejamos os velhos ranzinzas e reclamões quando ainda temos vinte e tantos anos, trinta e tantos anos, quarenta, cinquenta…

Que tal não comprar todos os discursos de imediato? Que tal ouvir Michel Teló? Que tal ver o Big Brother? Que tal ler a Veja? Que tal fazer tudo isso ouvindo, vendo e lendo criticamente, sem tentar APENAS reproduzir tudo o que ouvimos de antemão? A música pode ser ruim, a televisão pode ser vazia e uma revista trazer uma visão de mundo mas e o que fazemos com isso? Tudo é melhor fora do Brasil? Os nossos vales eram realmente mais verdes no passado?

E não vou terminar com nenhuma frase de efeito.

Só espero que outros textos sem rumo sejam escritos. O rito de passagem, de um ano pro outro, acho que foi cumprido. Bonjour, 2012.

cogumelos começaram a nascer no jardim

Noturno

03/12/2011 § Deixe um comentário

Sem muito a dizer, mas encontrando fotos perdidas, escondidas, esquecidas. Coisas que passam e que a gente deixa passar, sem nem pensar. E já vai mais um ano. Ufa.

 

Tirando o pó

12/11/2011 § 2 comentários

Hoje, em casa, fiquei com vontade de tirar o pó de tudo o que é “meu” nesta internet. Uma grande vontade, uma baita energia. Esbocei um texto e parei, li e percebi que hoje não é dia disso. Sei lá, simplesmente sei que hoje não é dia. Antes de tomar posições ou enfrentar os grandes perigos do mundo, é hora de estabelecer o que de fato eu (acredito que) sou e quero. Pontualmente, é claro, não desfinitivamente e imutavelmente.


Mas ainda assim, venho aqui tirar a grossa camada de pó que se acumulou. :)

[Vale citar que, apesar de não estar falando abertamente disto hoje, eu, enquanto estudante de pedagogia da USP, estou completamente tocado pelos últimos acontecimentos de lá. Muita coisa há de ser pensada e feita, e talvez eu esteja um pouco esgotado pra falar disso neste exato momento, ainda que eu esteja mobilizado em favor da greve de alunos. Hoje pela manhã o grupo SumarUSP de reflexões e produção na perspectiva da educomunicação (do qual eu faço parte) realizou um programa de rádio falando um pouco sobre o assunto. Quando ele estiver postado, compartilharei o link]

Escola: sobrevivendo novamente

30/08/2011 § 3 comentários

Desde o começo deste mês comecei a acompanhar algumas aulas em uma escola. Desde então, muita coisa passou pela minha cabeça e sinto minha cabeça borbulhando um tanto – principalmente pois esta é escola é bem diferente da anterior a qual eu havia feito estágio. Desde que esta experiência começou, uma coisa muito séria me ronda: como lidar com a indisciplina, ou melhor dizendo, com os modos que os alunos elaboraram para sobreviver à experiência escolar?

Esta pergunta não é nenhuma novidade, sei bem, mas o que não sei é como viver isto na prática – e vejam que eu ainda nem sou o professor. Engraçado chegar aqui e jogar uma pergunta “banal” no ar, mas hoje eu realmente não tenho nem por onde começar a refletir sobre isto. Talvez porque eu esteja me habituando à situação e às provocações, para então poder tecer pensamentos mais concisos ou então porque eu não faça nem ideia de por onde começar ou porque é tudo ainda desconhecido e rola um medo e uma tensão ou…

Não sei até que ponto as tantas teorias que existem por aí podem me ajudar (e a tantos outros que se perguntam), ainda que eu não esteja as colocando como “descnecessárias” ou “menores” por isso, mas, neste momento de provação, eu gostaria de realmente poder me reconfortar um pouco (embora isto possa soar um tanto quanto ruim.

Enfim, desengasgada a garganta (de leve), bóra pesquisar mais e sobreviver, também e novamente, à experiência escolar.

Design Gráfico e Educação: Socialização

22/07/2011 § Deixe um comentário

Fechando os posts sobre a relação entre design gráfico e educação (ao menos pré-N Design), hora de falar um pouco sobre o processo de socialização e porque eu acho que isto tem a ver com o assunto. Inicio colocando uma síntese da oficina que levarei ao N, que se propõe a realizar:

Uma discussão aberta e introdutória acerca da relação entre design gráfico e educação, onde pretende-se relacionar os elementos trazidos pelos participantes, se possível, com alguns tópicos referentes à teoria da socialização e da perspectiva da educomunicação.

De imediato já aviso (aos navegantes) que não é objetivo desta oficina ensinar sobre esses temas, o que eu pretendo é plantar a sementinha, iniciar de modo bem superficial para que quem se interesse tenha algum repertório para iniciar leituras e tudo mais [já deixo o convite e as portas abertas para uma discussão em grupo]. Por isso mesmo, já deixo uma bibliografia que eu penso ser básica, ou ao menos foi por ela que eu próprio fui iniciado.

Dito isso, reforço que considero a importância desta discussão ao compreender que a contemporaneidade se remete a um contexto extremamente midiático e tecnológico, ou seja, as relações sociais ocorrem no tempo da cultura das mídias, assim como a produção em design gráfico e a educação. Assim, entendendo que as comunicações estão amplamente presentes em nosso cotidiano, ultrapassando seu caráter meramente informativo e/ou de entretenimento, há que se pensar: o que há nos “bastidores”? O que está “invisível” e precisa ser estudado e compreendido?

Estas primeiras perguntam surgem, então, na minha compreensão, ao compreender que a atividade midiática, portanto, não está isenta, pois aqui a entende-se enquanto produtora e transmissora dos elementos que formam o universo simbólico que nos permitem viver em sociedade, como códigos, padrões e categorias. Por sua vez, tal colocação nos leva a verificar a condição das mídias no processo socializador.

Por socialização entendo, apoiado nos autores da bibliografia, principalmente Setton, como um sinônimo de educação, mas que traz uma abordagem e visão mais ampla, pois não se refere apenas ao ambiente escolar, mas também às interferências e relações com outras instituições como a família, a religião e a mídia. Ou seja, a socialização se remete a uma transmissões de valores, modos de ver, sentir e pensar que estão estreitamente relacionados às relações dos indivíduos com estas instituições. Enfim, “as mídias serão vistas aqui como espaços educativos, na medida em que são responsáveis pela produção de uma série de informações e valores que ajudam os indivíduos a organizar suas vidas e ideias” (SETTON, 2010, p. 9).

Sendo assim, propõe-se uma abordagem mais ampla e crítica da relação entre as mídias e a educação (e eu incluo/questiono o design gráfico dentro disso), observando e compreendendo como ocorrem os processos de socialização difusos, uma vez que a instituição midiática, a nosso ver, ultrapassa a condição de instrumentos, principalmente por possuírem uma face simbólica. Consideramos uma socialização difusa, pois “não possui um lócus de realização concreto, mas se dá a partir da ambiência midiática” (PRAZERES, 2010, p. 4). O que eu quero levantar com estas questões todas é: e o design gráfico e o designer dentro desta rede? Qual sua importância e do que ele produz?

Vale lembrar que nesta perspectiva, entende-se que as mídias possuem uma face imaterial e uma face material: a primeira remete ao conjunto de valores simbólicos nela embutidos, criados e disseminados pela circulação da comunicação; e a segunda remete aos meios de comunicação por onde circulam as informações, entendendo (segundo Setton, 2010) as mídias como produtoras de artigos culturais, disseminados por meio das diversas tecnologias como a internet, as mídias impressas, entre outras.

Enfim, dada esta complexidade existente na formação dos indivíduos contemporâneos e a importância das mídias e tecnologias no cotidiano de todos nós, me interessa muito esta discussão, por entender que tal perspectiva é muito rica e faz o possível para tratar estes assuntos considerando toda sua extensão e variedade. Cabe então refletir sobre o papel do designer gráfico nessa complexa trama.

Claro que não tenho resposta nenhuma e sequer avencei um passo nesta discussão, mas enquanto pessoa que vivenciou certas dificuldades e ausências (de estudos aprofundados e coerentes no design gráfico e a própria prática) creio que tal discussão é deveras rica e pode fomentar algo muito bom e pertinente. O que me proponho é a provocar perguntas.

Finalizo este post exatamente botando no papel o prazer de pensar em tudo isso. E mais, acredito que reside justamente nestas sementes plantadas nos outros, o real valor do N Design, e digo mais: o próprio caráter socializador deste evento, que não apenas ensina e/ou propaga conteúdos e técnicas, mas que permite a transmissão de modos de ver, pensar e agir de um de um ideal de designer, isto sim me parece fundamental – ao menos para mim, que por certas razões me identifico com este ideal.

Restará apenas a pergunta: será que este ideal de designer é coerente ao nosso contexto social, histórico e cultural?

 

 

Referências bibliográficas

BERGER, Peter L. & LUCKMANN, Thomas. “A sociedade como realidade subjetiva”. In: A construção social da realidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 1983.

BOURDIEU, Pierre. Estruturas sociais e estruturas mentais. In: Teoria & Educação nº3. Porto Alegre: Pannonica Editora, 1991.

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade Pessoal. Lisboa: Editora Celta, 1994.

KELLNER, Douglas. A cultura das mídias. Bauru: EUSC, 2001.

PRAZERES, Michelle. Mídias e tecnologias na educação paulista: uma mirada sobre a moderna socialização escolar. In: Anais da 33a Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – Anped: Educação no Brasil: o balanço de uma década. 2010. Caxambu, 17 a 20 de Outubro de 2010. Disponível em:  http://www.anped.org.br/33encontro/app/webroot/files/file/Trabalhos%20em%20PDF/GT14-6406–Int.pdf

SETTON, Maria da Graça Jacintho. Educação e mídia: um diálogo para educadores. São Paulo: Contexto, 2010.

______. Família, escola e mídia: um campo com novas configurações. In: Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 107-116, jan./jun. 2002.

______. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu. In: Revista Brasileira de Educação, ANPED, n. 20, mai./ago. 2002.

Design Gráfico e Educação: Educomunicação

21/07/2011 § 2 comentários

Vamos lá, foi bem difícil de sintetizar as ideias sobre a educomunicação, mas cá estou eu.  Sublinho que a importância desta síntese para mim é de não apenas servir de base para as oficinas que ministrarei no N Design (Design Gráfico e Educação: uma discussão introdutória e Produção de Fanzine e formação do designer), mas também para criar uma certa conexão entre os pensamentos que estão soltos em minha mente. Espero que a coisa toda não fique mais confusa.

Como eu havia dito no outro post, pensar a relação do design gráfico e a educação é algo ainda muito novo para mim, um caminho um tanto quanto desconhecido e cujo apenas os primeiríssimos passos eu dei. Enfim, se esta relação é muito nova e recente para mim, relacionar design gráfico e educomunicação é algo ainda mais fresco ainda, de qualquer maneira faço esse esboço e levo para o N Design pois realmente entendo que nosso tempo é o tempo da comunicação e da tecnologia, e além disso, como sempre diz a Profa. Grácia: todos tem o direito a se comunicar.

Paralelamente, também acho importante reforçar, como bem lembrado pela Grácia, que a noção de educação nesta perspectiva não se restringe apenas ao ambiente escolar e, mais além ainda, uma educação escolar (seja formal ou não-formal): aqui há que se compreender que esta educação vem não ensinar, mas sim fortalecer os indivíduos e os grupos – talvez compreender que nesta perspectiva da educomunicação não há professor, tutor ou etc, mas sim um mediador, traga uma boa ilustração para compreender isto. Tanto é que os grupos são muito mais responsáveis por si próprios do que o mediador ou mesmo outras instituições – sendo assim, qualquer grupo pode adotar estas medidas de “produção” e estabelecer essas práticas, não é preciso que haja alguém formado institucionalmente, com um diploma lindo e tudo mais.

E nós, designers, nos comunicamos? Sabemos o que é isto de fato? Essa preocupação é que me motiva, neste momento. O designer gráfico é um profissional que está intrinsecamente ligado à comunicação, mas será que pensa-se nisso? Ao menos eu, enquanto era estudante de design, nunca pensei e nunca, dentro dos muros da faculdade, fui questionado a pensar. Como alguém que irá desenvolver produtos nesta área não passa por um processo crítico desta ordem? Penso que produzir comunicação na perspectiva da educomunicação não é apenas uma medida formativa para o campo profissional e/ou para uma compreensão crítica das mídias, também é uma medida que visa formar as pessoas em si, conscientes de suas possibilidades, falibilidades, direitos etc.

O que me deu possibilidade de refletir e falar sobre tudo isso foi basicamente a minha vivência no já citado Núcleo de Educomunicação do Lab_Arte FEUSP, mas agrego aqui também alguns pontos do que vi e ouvi no 5º Seminário de Educomunicação (nesse link vocês podem ver este seminário e outros que já aconteceram), promovido pelo Instituto Gens de Educação e Cultura e o Projeto Cala-boca já morreu, cujo tema foi Educomunicação e Design, tendo como convidado Vitor Massao.

Assim, como eu esbocei acima, o que o Massao propõe é, de imediato, a necessidade de desconstruir o que é ser designer, percebendo o que é o mundo comercial. Para ele, e acho que para mim também, o designer tem uma responsabilidade social [digo “acho” simplesmente porque ainda não me detive o suficiente nesta reflexão e no que significaria a “responsabilidade social do designer”].

Na continuidade, Massao apontou são diversas aproximações entre a educomunicação e o design gráfico, e penso eu que um dos motivos disso é a própria prática da comunicação em ambos, embora cada qual com objetivos bem distintos. Por exemplo, a própria metodologia clássica do design gráfico tem pontos em comum com esta perspectiva educomunicativa que tento lhes apresentar: há uma fase conceitual, uma produção etc – enfim, há uma metodologia.

Outra aproximação importante é a presença do trabalho coletivo em ambos, mas aqui há uma diferença muito importante de se notar: a distinção entre grupo e equipe. Enquanto no mercado de trabalho existem equipes de produção, na educomunicação o que há é uma sensibilização em prol da formação de um grupo, ou seja, não é que existam indivíduos que meramente se juntam para a realização de um trabalho específico, mas sim pessoas que se agrupam e realizam de forma coletiva uma produção de comunicação. [Talvez isto não tenha ficado muito claro, esta diferença, mas no momento não tenho palavras melhores para expressar isto]

Claro que as diferenças entre os ambientes onde ocorre o design gráfico (estúdios, escritório, agências) e a educomunicação por si só estruturam as próprias relações, mas talvez nem seja o caso de se pensar em uma prática de design gráfico mais humana no mercado [ao menos não é algo que eu esteja pensando seriamente neste momento]. O fato é que os valores embutidos nas diferenças entre grupo e equipe se reproduzem consequentemente no resultado. De qualquer modo, é interessante pensar em práticas desta perspectiva na formação do designer.

Isto nos leva a retomar, rapidamente algo que escrevi em outro post, falando especificamente sobre o Núcleo de Educomunicação:

“Assim, retomamos também a premissa básica destes encontros, que em pouquíssimas palavras é a criação e produção de comunicação para a experimentação dos meios em relação à educação e para a compreensão e vivência do convívio e trabalho coletivo. Com todas as lacunas possíveis e imagináveis, essa breve frase sintetiza (ou ao menos tenta) o que é o nosso objetivo, digamos assim, com este núcleo. Aqui o que mais nos interessa é o processo em si e não o produto final.

A produção em educomunicação visa estas questões na prática, considerando deslizes, erros e tropeços (comuns a todos neste processo) para a construção de novas possibilidades de convívio, acertos e criação, tudo isso voltado à formação de professores, mas também, à formação das pessoas como um todo.

Enfim, a frase em negrito revela uma premissa fundamental desta prática e que pode ser pensada em relação ao design gráfico: ao mesmo tempo em que no design a metodologia [o processo] é fundante da própria razão de ser deste campo, na sua prática ela é jogada de lado, digamos assim, pois o que fica, o que importa e até o que se preza é o produto final. Claro que este pensamento precisa ser afinado, mas de qualquer modo nos serve de ponto de partida para uma outra reflexão.

Encerrando este tópico, recentemente eu encontrei uma anotação minha, perdida dentro de um livro, uma anotação um tanto quanto ensaística e que de certa forma se refere a esta preocupação metodológica, nela eu escrevi:

Uma vez que o design gráfico não pode ser dissociado da prática, já que ela está inerentemente conectada com a vida cotidiana do designer, talvez seja preciso investigar a própria prática, então, considerando tempos e contextos específicos. Ou seja, ao invés de vislumbrar estudos de caso ou experiências práticas, talvez seja mais interessante se deter no cotidiano de designers, escritórios e estúdios para verificar em que medida estas teorias que nos embasam se verificam presentes e úteis. Deste modo, talvez seja possível pensar o design de fato, e não apenas pensando-o se referindo ao nosso próprio umbigo e às teorias caducas que tanto nos acompanham. Pode ser que assim possibilitar-se-ia uma reflexão prática-teórica que fosse abrangente e importante o possível.

Será? Apenas sei que o importante é continuar duvidando.

ps: quem se interessar por leituras sobre educomunicação, aqui tem alguns textos. A quem interessar, também deixo a primeira parte do 5º Seminário. :)

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