Uma avenida, muitas pessoas

30/03/2009 § 1 Comentário

avenida dropsie joao caldas

Com grande prazer escrevo este texto. Será sobre a peça Avenida Dropsie, encenada pela Sutil Companhia de Teatro, em comemoração de seus 15 anos, no Teatro Popular do SESI. É engraçado ter duas visões da mesma coisa, duas experiências com data diferente, com pessoas e um eu diferente. Quando a peça estava fazendo um extremo sucesso em 2005, eu fui. E hoje, durante uma comemoração especial, lá estava eu de novo. Com muito prazer.

Inspirada na obra do mestre Will Eisner, Avenida Dropsie transforma o banal em digno, um ato pouco visitado pela maioria de nós, tão sedentos pela fuga do medíocre. Mas é nesse encontro de frente com o cotidiano que Eisner e a Sutil não apenas pinçam, como focam nos pequenos milagres do dia-a-dia e também tranformam a banalidade em assunto importante, diagmos assim. Seria muito óbvio falar que aquelas situações poderiam e devem estar ocorrendo em qualquer cidade grande. O que deve ser refletido é algo interior: só falta a cada um de nós um pouco mais de sensibilidade para transformar nossas vidas em personagens e narradores.

Acho que faltava (e ainda falta) um pouco desse frescor da banalidade em mim. É lembrar que mesmo a mais complexa das atitudes, ações e cidades, só tem a guardar coisas simples e leves. Tudo depende no nosso modo de olhar, da nossa atenção. Falta tirar um pouco do egocentrismo e contemplar a vida de fora, mesmo que essa seja ao lado: vizinhos, amigos, família. Eisner e a Sutil ensinam um pouco disse na peça. É um valor esquecido. Não, esquecido não, apenas escondido.

Como sempre é muito difícil escrever sobre algo tão próximo, íntimo e que faz parte do meu gosto. Mas essa segunda visão da peça me permitiu perceber que: comparada a outras peças que eu vi nos últimos meses, Avenida Dropsie é um teatro mais técnico, com primor técnico indiscutível, embora a direção e atuação não deixem dúvidas do talento e habilidade. Mas é na cenografia e cenotécnica, na iluminação, no projetual em si, que este espetáculo faz delirar. E muito. Faz os olhos tremerem. Uma expressão exagerada, sim, no entanto o que mais poderia dizer? Avenida Dropsie satisfaz o olhar, e enche a gente de um cotidiano tao nosso, tão remoto, que até parece de mentira. É ou não é?

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Título: Avenida Dropsie
Título Original: Dropsie Avenue
Autor: Will Eisner
Direção: Felipe Hirsch
Elenco: Guilherme Weber, Magali Biff, Leonardo Medeiros, entre outros.
Ano: 2005/2009
(Até 5/4/2009)

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Quer ler mais? Então vá clicando aqui e aqui também! Esses links são da época da estréia da peça, em breve coloco mais links, aí sim, atuais! =)

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Homens e vidros

23/02/2009 § 1 Comentário

Zoológico de Vidro

Nessa última sexta-feira eu comecei o meu carnaval de um jeito bem indie/cult intelectualizado: fui assistir no Sesc Consolação o espetáculo Zoológico de Vidro, do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams. Tudo já indicava que seria uma boa experiência, pois as críticas que eu havia lido eram bem positivas e talz. Pois bem… estou impressionado até agora.

Praticamente toda a força do espetáculo está nos atores, que constituíram por meio de uma escolha estética do exagero e do cômico, uma força de vitalidade e violência, algo maravilhosamente melancólico. Cada perfil e problema que tornava-se visível, tinha um contra-ponto na comédia, que fez o público gargalhar (não escondo que isso me deixou furioso). Como acontece aqui no “mundo de fora”, o riso era apenas um meio de esconder da platéia a amargura de cada um dos personagens em cena.

A sensação era de extrema fragilidade, não do ser humano apenas, mas das relações e sentimentos. O desejo que força a razão, a nostalgia que massacra a realidade, o exagero dos esteriótipos que intensifica o nonsense da humanidade, e por fim o vidro, símbolo do homem: ideal, belo, luminoso, transparente… forte e frágil. E toda a força da peça cabe numa frase, dita pelo único personagem que não constitui a família em jogo: “Eu não sou de vidro”, diz para a menina que coleciona miniaturas de vidro.

E quando as luzes se apagaram, a minha vontade era de seguir os passos de Tom Wingfield, o personagem que se escraviza pela família e não pode viver a vida, senão pela tela do cinema, a válvula de escape imagética. Sua decisão é a fuga real, ir viver essas aventuras cinema na vida real. E como fantasmas, o passado ainda ecoa, mas foi sua escolha, sua sina e seu caminho.
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Título: Zoológico de Vidro
Título Original: The Glass Menagerie (também traduzido como “À Margem da Vida”)
Autor: Tennessee Williams
Direção: Ulysses Cruz
Elenco: Cássia Kiss, Kiko Mascarenhas, Karen Coelho e Erom Cordeiro.
Ano: 2009
(Até 1/3/2009 – ingressos esgotados)

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